Ananda Miranda
Repórter
O avanço no uso de canetas emagrecedoras tem
provocado mudanças no comportamento alimentar e já começa a refletir no consumo
em restaurantes. Em Natal, estabelecimentos observam clientes comendo menos,
priorizando refeições mais leves e reduzindo o consumo de álcool, em um
movimento que também acompanha uma tendência mais ampla de busca por hábitos
saudáveis.
Esses medicamentos atuam no organismo ao aumentar a
sensação de saciedade. A substância reduz o apetite e desacelera o esvaziamento
gástrico, fazendo com que os usuários passem a consumir menores quantidades de
alimentos.
“Já faz um tempo que eu observo essa tendência de
mudança de hábito provocada por essas canetas emagrecedoras e, por isso,
tivemos uma redução no ticket médio; as pessoas gastam menos em relação ao que
gastavam antigamente”, disse Paolo Passariello, proprietário do Gennarí.
Segundo o Conselho Federal de Farmácia, o uso de
canetas emagrecedoras no Brasil cresceu 88% em 2025. Paolo informa que é cada
vez mais comum os clientes do restaurante pedirem um prato para dividir, o que
reduz o faturamento da casa.
O chefe explica que o restaurante vai começar a
aderir à opção de meia porção para atender esse público. “Já está planejado que
a gente vai mudar um pouquinho o cardápio e vai incluir a meia porção e
aumentar, talvez, a quantidade de proteína dentro do nosso cardápio. Porque,
com esse uso, as pessoas estão precisando consumir mais proteína”, considera
Passariello.
Desde a formação inicial do cardápio, o Zeh Cozinha
já tinha preocupação com clientes que optam por porções menores. Esse impacto
foi sentido ainda mais recentemente, quando a tendência começou a ser de
clientes escolhendo consumir entradas em vez de pratos principais como
refeições.
“Nós temos alguns pratos que servimos que
inicialmente eram entrada, mas que naturalmente foram passando para o prato
principal. Um exemplo é o camarão com purê de limão, que é uma porção generosa
de proteína de camarão, sobretudo com purê de limão. Muita gente pede como
refeição, embora seja uma entrada”, disse Eimard Fernandes, sócio do Zeh
Cozinha.
Por consequência, o ticket médio do restaurante
registrou queda, refletindo mudanças no comportamento do consumidor. “Hoje,
muitas vezes, um prato é compartilhado com 3, 4 pessoas. No consumo de bebida
alcoólica, também houve redução; as pessoas foram consumindo menos álcool.
Consequentemente, isso reduz o ticket médio”, comenta Maria Cláudia Valle,
sócia do Zeh Cozinha.
Além das adaptações no cardápio, o Zeh também tem
adotado uma postura mais orientativa no atendimento. As equipes costumam
informar previamente quando um prato é bem servido e pode atender mais de uma
pessoa, evitando que clientes se surpreendam com o tamanho da porção.
Sem apetite
Utilizadas no tratamento da obesidade e de doenças
metabólicas, as canetas emagrecedoras exigem atenção à qualidade da dieta pela
diminuição do apetite dos usuários.
De acordo com a nutricionista clínica funcional
Christiane Potter, a medicação atua imitando hormônios produzidos naturalmente
pelo organismo, como GLP-1 e GIP, que ajudam a regular a fome, aumentar a
saciedade e controlar a glicemia.
“O Mounjaro reduz significativamente o apetite, o
que faz com que haja a perda de peso; a ação da tirzepatida é imitar hormônios
que nosso corpo produz”, conta Potter.
Apesar de contribuir para a perda de peso, a
especialista alerta que comer menos não significa, necessariamente, se
alimentar melhor. “Comer menos não significa uma alimentação saudável; a
qualidade da dieta não está relacionada apenas à quantidade de comida; para
quem está usando as canetas, a qualidade deve ser priorizada. Uma alimentação
saudável envolve equilíbrio nutricional”, destaca.
A orientação é evitar escolhas pobres em nutrientes,
que podem levar a quadros como fadiga, perda de massa muscular e deficiências
nutricionais. “Comer menos volume e aumentar densidade e qualidade nutricional
é o melhor a fazer; a adequação é indispensável e deve ser feita por um
nutricionista”, destaca a especialista.
Mesmo com a redução do apetite, é importante manter
uma base alimentar completa, com destaque para o consumo de proteínas, além de
frutas, legumes e verduras, que garantem a ingestão de fibras, vitaminas e
minerais.
Carboidratos e gorduras boas também devem fazer
parte da rotina, assim como a hidratação adequada e, quando necessário, a
suplementação orientada por profissional. Ela ressalta ainda que o uso do
medicamento deve ser sempre acompanhado por profissionais de saúde.
Geração mais preocupada com a saúde
Para Eimard Fernandes, do Zeh Cozinha, a tendência
está ligada a uma mudança de mentalidade dos clientes, que passaram a priorizar
refeições mais nutritivas e equilibradas, deixando em segundo plano a ideia de
comer em grande quantidade apenas para se sentir satisfeito. “Essa eu diria que
é uma evolução no hábito das pessoas de tentar ser mais saudáveis e não
necessariamente tira as pessoas da convivência social. Ninguém deixa de vir
para o restaurante. Apenas ele vem de outra forma”, pondera.
Como forma de adaptação ao novo perfil de consumo, o
Zeh Cozinha lançou pratos inéditos voltados ao público fitness. Entre as
novidades estão a sobrecoxa na brasa com arroz biro-biro, o atum assado na
brasa com shitake e salada de batata, além do purê de batata com língua bovina
laminada na brasa.
A forma de comer fora mudou; muitos clientes vão aos
restaurantes em busca de experiências sem sair da dieta.
Francisco Gasteasoro, chefe de cozinha do Manary,
explica que o comportamento alimentar dos consumidores também tem influenciado
a composição dos pratos. “Hoje a gente não vai só para o restaurante com o
propósito de se alimentar, e sim com o propósito de uma experiência”, defende.
Segundo ele, essa tendência é sentida principalmente
no fim de semana, quando os clientes pedem mais entradas do que pratos
principais, para petiscar.
Cada vez mais atentos à qualidade nutricional das
refeições, muitos clientes têm priorizado escolhas que ofereçam maior valor
proteico: “O que eu tenho ouvido, pesquisado, familiarizando-me com essa nova
tendência, é que as pessoas estão querendo migrar para uma alimentação com mais
proteína do que acompanhamento”. Ele atribui essa mudança à maior procura por
atividades físicas em academias, que exigem maior quantidade de proteína.
O chefe observa que, para os clientes, comer bem já
não está associado a comer em grande quantidade. Apesar da crescente
preocupação dos clientes com o valor nutricional das refeições, os pratos do
Manary seguem com porções bem servidas. “A gente, como cozinheiro, sempre tem o
hábito de observar o que volta no prato. Até o momento, não temos percebido um
aumento de sobras”, afirma.
Segundo ele, o cardápio da casa prioriza preparações
à base de legumes e com poucos produtos industrializados, acompanhando um público
cada vez mais atento à qualidade dos ingredientes, incluindo a preferência por
itens orgânicos.
Mocktails são tendência
De acordo com a nutricionista, quem usa canetas
emagrecedoras precisa evitar bebidas alcoólicas. “Evitar o consumo de álcool
para reduzir os impactos na glicose, fígado e intestino”, destaca Christiane
Potter.
A cartela de vinhos, destaque do Gennarí, tem menos
clientes pedindo. De acordo com o chefe, esse movimento é percebido no contato
direto com os clientes, que relatam que o uso de canetas emagrecedoras pode
reduzir não apenas o apetite, mas também o interesse por bebidas. “Eu converso
muito com nossos clientes; o uso da caneta inibe tanto a comida quanto a bebida”,
alerta Paolo Passariello, que teve queda no ticket médio de comidas e bebidas.
Como forma de acompanhar a tendência, entre os
destaques do cardápio do Zeh Cozinha estão os mocktails — coquetéis
sofisticados, sem álcool, que valorizam o equilíbrio de sabores aliado a uma
apresentação caprichada.
Segundo o restaurante, houve uma redução
significativa no consumo de álcool. A casa ampliou as opções de bebidas sem
álcool e sem glúten, incluindo diferentes rótulos de cervejas zero álcool. “É
um novo cenário. Não é só menos comida. As pessoas estão mais preocupadas com a
funcionalidade dos alimentos, com o que pode ser consumido”, destaca a
empresária Maria Cláudia Valle.
No Manary, a redução no consumo de bebidas
alcoólicas também foi sentida. “Hoje em dia, a gente vê muito a diminuição do
consumo de bebida alcoólica; aumentou a frequência, o pessoal hoje vai mais
para as academias, você vê muito mais gente hoje fazendo esporte, fazendo
atividade física”, disse o chef Francisco Gasteasoro.

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