Os auditores do Tribunal de Contas da União (TCU)
suportaram a pressão política e elaboraram um parecer técnico sobre o trabalho
do Banco Central que merece ser lido e relido por quem quiser entender com mais
clareza o caso Master. É um daqueles episódios em que os servidores públicos -
especialmente da elite tão criticada do funcionalismo - deixam claro que servem
ao Estado, fazem jus aos altos salários e à estabilidade conquistada em
concurso.
Como mostrou o Estadão, havia pressão do ministro
Jhonatan de Jesus para que o parecer condenasse a atuação do Banco Central na
análise do Master e abrisse espaço para a suspensão e até a anulação da liquidação
do banco comandado por Daniel Vorcaro. Pressão que também era reforçada pelo
ministro Dias Toffoli, primeiro relator do caso no STF, e que colocou o
trabalho do Banco Central em xeque.
Pois as 125 páginas do documento revelam exatamente
o contrário: que não foram identificadas “impropriedades, omissões ou
negligência na atuação” do BC, e que a liquidação foi medida “imperativa, legal
e tecnicamente bem fundamentada”. Esse é apenas um trecho da conclusão do
relatório, mas ele vem embasado cronologicamente, revelando que desde 2021 o
Banco Central já monitorava fragilidades na governança e na gestão de ativos do
Master.
“A cada descoberta, o BCB formalizou ofícios,
súmulas de apontamentos e determinações corretivas, construindo um lastro
probatório sólido e rastreável sobre a deterioração progressiva da situação
econômico-financeira da instituição”, apontam.
As páginas contrastam com o depoimento de Vorcaro,
que afirmou em depoimento à PF que foi pego de surpresa com a liquidação do
Master, já que seguia todas as normas estipuladas pelo órgão regulador. Também
jogam por terra a narrativa elaborada pela defesa do ex-presidente do BRB Paulo
Henrique Costa, que disse que não sabia das fraudes e que o próprio BRB teria
feito a comunicação do problema ao Banco Central.
Sobre o governo Ibaneis Rocha, há um pedido de
investigação por órgãos competentes, já que eles relatam pressão sobre o TCU
para tentar contornar o trabalho do BC. Ibaneis agora tenta se distanciar do
caso, mas o seu governo precisa explicar por que houve tanto interesse em
comprar o Master, mesmo depois de ter levado um golpe de R$ 12,2 bilhões em
carteiras fraudadas do banco.
Com o embasamento técnico para a liquidação e as
revelações de que Vorcaro cometeu crimes em série, só resta ao ex-banqueiro
buscar a delação premiada. Um dos capítulos dessa trama criminosa ficou mais
claro a partir do relatório do TCU.
Alaro Gribel - Estadão

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