A possibilidade de cobrança pela água bruta,
conforme planejado pelo Governo do Estado, terá impactos nos custos de
produção, com a oneração de preços dos produtos para o consumidor final, além
de impactar diretamente na competitividade do Rio Grande do Norte junto às
outras unidades federativas do País. A avaliação é das entidades ouvidas pela
TRIBUNA DO NORTE sobre o tema. Para a maioria das fontes, a taxação é
equivocada e terá impactos nas camadas mais carentes da população. A cobrança,
segundo uma minuta de decreto do Governo, varia entre R$ 0,01 e R$ 0,45 por m³
de água.
Fábio Queiroga, presidente do Comitê Executivo de
Fruticultura Irrigada do Rio Grande do Norte (Coex), classifica a medida como
“inoportuna”. Segundo ele, a cobrança não irá inviabilizar ou reduzir
produções, mas irá onerar custos, os quais irão respingar diretamente na
população mais carente. “Mais de 50% do que essa população ganha é gasto com
alimento, então é a parcela a ser diretamente castigada. A penalidade se dá uma
vez que, se o custo de produção é onerado, o valor de venda dos produtos
aumenta. E quem paga por isso é a sociedade”, analisa.
Queiroga destaca que o uso de irrigação para a
produção de fruticultura é fundamental no RN em razão da localização do Estado,
que está vulnerável a situações de seca constantes. O fator, aponta, impacta na
competitividade da produção potiguar. “Temos um custo energético muito alto,
porque estamos situados em uma região do Brasil cuja fruticultura depende
totalmente de irrigação. Concorremos com o País todo que, em sua quase
totalidade, produz em regiões de chuva. Assim, essa medida se faz
totalmente inoportuna”, frisa o presidente do Coex.
O presidente da Cooperativa dos Plantadores de Cana
do RN (Cooplacana-RN), Anderson Faheina, concorda com Queiroga sobre a oneração
de custos e os impactos na competitividade do setor produtivo do Estado. “É uma
medida equivocada. O Rio Grande do Norte é pouco competitivo. Há uma invasão de
empresas pernambucanas, paraibanas e cearenses por aqui e a gente praticamente
não tem empresas em outros estados. É uma prova do quanto nosso setor produtivo
está assoberbado de impostos e taxações. A gente trabalha mais pensando em
sobreviver do que em expandir”, avalia.
Anderson Faheina, que também é membro da Associação
dos Plantadores de Cana do RN (Asplan-RN) chama atenção para o fato de que a
medida pode afastar empresas com a intenção de se instalar no Estado. Ele
também cita os impactos que a cobrança pode ter em itens da cesta básica, como
o açúcar, bem como no preço dos combustíveis.
“No segmento de cana de açúcar, estimamos um
aumento de custo, no campo, de 5% com a medida. Na indústria, também serão 5%.
Então, o álcool, a gasolina e o açúcar terão um aumento final de 15% para o
consumidor. Isso gera uma elevação em todo o comércio. E a camada mais pobre da
população é a mais afetada”, conclui Faheina.
Sobre o assunto, a Fecomércio RN disse que “vê
sempre com muita preocupação qualquer medida estatal que redunde em aumento de
custos para o segmento produtivo”. Para o setor de Serviços e Comércio, de
acordo com a minuta em discussão sobre o tema, será cobrada uma taxa de R$
0,33/m³.
“É claro que precisamos aprofundar mais este debate
em torno da cobrança extra pelo uso da água, até porque ela é, sem dúvida, um
bem essencial. Entendemos que somente assim poderemos ter uma visão mais
detalhada dos eventuais impactos que esta medida traria para o nosso setor”,
informou a Fecomércio em nota.
“Mas já precisamos registrar nossa preocupação com
segmentos como o de bares, restaurantes e hotéis, além de serviços pontuais que
usam de maneira mais intensiva a água. Nestes casos, a conta deste item tem um
peso considerável na planilha geral de custos do negócio. Tanto que, uma vez
levada adiante, esta cobrança extra poderá ter reflexos negativos, gerando
danos na competitividade das empresas”, complementa a nota da Federação.
Já para o CEO da Agrícola Famosa, Carlo Porro, não
há como fugir da taxação. “O importante é cobrar valores competitivos e justos.
A cobrança é inevitável e já acontece em vários estados, inclusive, no Ceará. Não
é isso que vai inviabilizar a produção, desde que seja, como eu disse, cobrado
um preço justo”, pontuou. A Agrícola Famosa é a principal exportadora de frutas
do Rio Grande do Norte. Para a próxima safra, que começa em agosto, a empresa
espera, pelo menos, manter os números da safra passada, quando foram exportados
9 mil contêineres, o equivalente a 120 mil toneladas de frutas.
A possibilidade de cobrança por água bruta no Estado
está em discussão a partir de uma minuta de decreto por parte do Governo do
Estado. O documento aponta que a cobrança varia entre R$ 0,01 e R$ 0,45 por m³
de água. O uso da água bruta pela indústria, por exemplo, teria uma cobrança de
R$ 0,45/m³ e de R$ 0,42/m³ para água mineral e potável, as duas maiores
taxas. Além disso, um artigo específico indica uma “tarifa de
contingência”, em que o Estado cobraria percentuais de 10% a 50% em situações
de escassez hídrica em cima dos valores já cobrados.
Segundo o Governo, os valores não estão
necessariamente definidos. A cobrança, afirma o Executivo, faz parte da
regulamentação de uma lei aprovada em 1996. O tema chegou a ser discutido
recentemente na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte (ALRN), por
iniciativa da deputada Cristiane Dantas (SSD). A parlamentar disse que apresentou
um PL na
Assembleia para vetar que a taxação da água bruta
ocorra por meio de decreto governamental. O projeto da deputada já causou
reação na Assembleia Legislativa, com alguns deputados antecipando que
votarão contra a cobrança.
O titular da Secretaria de Meio Ambiente e Recursos
Hídricos (Semarh), Paulo Lopes Varella Neto, defende que a cobrança já está
instituída. “A cobrança foi aprovada pela ALRN em 1996. O que estamos querendo
fazer agora após discussões com comitês de bacias, é como podemos regulamentar
essa lei. Não existe decreto pronto a ser publicado, o que existe é uma minuta
em discussão”, explica.
Segundo o secretário, há duas premissas para a
cobrança. Uma delas é que existe uma série de isenções para quem não pode
pagar pelas taxas. “A agricultura, evidentemente, está isenta. Além disso,
vamos cobrar pouco [para outros segmentos], são centavos por mil litros
d'água”, diz Varella Neto.“Evidentemente que quem pode pagar mais, vai pagar um
pouquinho mais. A carcinicultura, por exemplo, pagaria um centavo pela minuta.
E que fique claro: a cobrança foi instituída pela ALRN, existe uma lei, e
queremos regulamentar com um impacto pequeno. A ideia é que, num momento de
escassez a gente possa aumentar um pouco o preço dos que podem pagar
mais”, acrescenta.

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