Se não houver recuo da parte dele, Edson Fachin fará
história no STF como o presidente que não teve medo de enfrentar o
corporativismo no momento da maior crise moral da Corte em 195 anos de
existência.
Até anteontem, ele parecia ser o homem errado no
lugar errado na hora errada. Mas a sua demora em agir, agora fica claro, foi
por respeito aos ritos na tentativa de ser exemplo a quem vinha depredando
todos os códigos de comportamento, e não apenas do Supremo, mas da própria
convivência em uma sociedade que se pretende honesta e civilizada.
Ao ter a sua autoridade como presidente afrontada
diretamente pela decisão destrambelhada de Flávio Dino de reintegrar o
diretor-geral da PF, Edson Fachin agiu inapelavelmente.
Neste momento, o presidente do STF aplaina o caminho
para o julgamento que definirá se Alexandre de Moraes passará à condição de
investigado no caso Master.
O ministro encrencado e os seus defensores querem
criar confusão, enfiando na pauta o caso artificial de abuso de autoridade
criado por eles contra Mendonça, para desviar o julgamento do seu verdadeiro
assunto: a relação promíscua de Moraes com Daniel Vorcaro.
Para fechar o foco no que realmente importa, Fachin
solicitou a Mendonça que abrisse o sigilo de parte da investigação que revelou
que Moraes era mesmo o interlocutor das já famosas mensagens de WhatsApp
enviadas pelo fraudador.
Investigação que só precisou ser feita, repita-se,
porque o ministro mentiu quando as primeiras mensagens vieram à tona, no início
de março, ao dizer que não era ele o destinatário dos pedidos de Vorcaro por
blindagem na PF e na PGR. Mentira na qual Moraes deverá reincidir.
Sigilo levantado, os brasileiros têm, agora, o
direito de saber não apenas detalhes do que foi apurado sobre a parceria entre
Moraes e fraudador, como de ver esclarecido um ponto com o qual o ministro e os
seus defensores pretendiam politizar o julgamento: o da suposta parcialidade de
Mendonça em relação ao envolvimento de Flávio Bolsonaro no caso Master.
Na verdade, desde julho, por autorização de
Mendonça, o filho de Jair, candidato a presidente da República, vinha sendo
alvo de investigação sigilosa, pedida pela PF e avalizada pela PGR, por
suspeita de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas no episódio de
financiamento do filme Dark Horse.
No entanto, ao contrário do que ocorre com o
processo que está nas mãos de Flávio Dino, a PF sentou em cima do material
enviado a Mendonça e nunca pediu nenhuma diligência. Pergunte-se retoricamente
a Andrei Rodrigues o motivo da preferência por Flávio Dino.
Cai por terra, assim, a acusação dos detratores de
Mendonça e fica mais liso o caminho para o julgamento sobre o destino de
Moraes.
Outro ponto importante: nada do que está sendo
publicado sobre o envolvimento de Dias Toffoli com Daniel Vorcaro figura nos
autos do processo que está no gabinete de Mendonça.
O relatório da PF que traz a suspeita de que o
ministro era o proprietário, de fato, do fundo de investimentos por meio do
qual o cunhado de Vorcaro adquiriu as cotas do resort Tayayá havia sido
arquivado por Fachin em fevereiro, quando tiraram Toffoli da relatoria do caso
Master. Ali, sim, um ministro do STF havia sido investigado sem
autorização do plenário do Supremo.
Nunca coube a Mendonça ter a iniciativa para
investigar Toffoli, não só porque não é esse o seu papel, como porque que ele
nunca teve nada a respeito do colega nas mãos.
Fachin lança mão do melhor detergente, a luz do sol,
para fazer história no STF.
Mário Sabino - Metrópoles

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