Felipe Salustino
Repórter
O Rio Grande do Norte acumula em 2026 um total de
19.857 empresas geridas por jovens em idade de trabalho, de acordo com dados do
Sebrae-RN. O número representa um crescimento de aproximadamente 1.320,5% em
relação a 2020, quando o estado contabilizava 1.398 negócios liderados por
empreendedores nessa faixa etária. Isso significa que o total de empresas é
quase 15 vezes superior ao registrado há seis anos. A necessidade de escalar
uma renda, as dificuldades no mercado de trabalho provocadas pela pandemia de
covid-19, aliadas a oportunidades geradas pela internet contribuem para essa
expansão.
Natal (com 7.156 empresas), Parnamirim (com 2.187),
Mossoró (1.973) e São Gonçalo do Amarante (729) estão no topo das cidades
potiguares com maior número de negócios liderados por jovens. Os demais
municípios que se destacam são Extremoz (407 jovens empreendedores), Macaíba
(329), Caicó (321), Ceará-Mirim (262), Assú (234) e Currais Novos (228).
Ravi Brito, diretor de Eventos da CDL Jovem Natal,
explica que o crescimento do número de empreendedores jovens no Rio Grande do
Norte de 2020 para cá tem a ver, em primeiro lugar, com os efeitos provocados
pela pandemia de covid-19.
“O ano de 2020 é marcado pela chegada da crise
sanitária, quando muitas pessoas perderam o emprego e começaram a buscar uma
nova fonte de renda – esse é o chamado empreendedorismo por necessidade. A
outra explicação é que esses jovens também começaram a empreender por
oportunidade, com a ascensão da internet, que permitiu o e-commerce e a
possibilidade de acessar novidades de forma mais rápida”, explica.
Foi graças à internet e à paixão pelo artesanato que Janiely Félix, hoje com 26
anos, decidiu criar, no auge da pandemia, a marca de bolsas Palha Potiguar.
“Comecei tudo de forma on-line, em 2021, apoiada
pela minha mãe. A gente sempre gostou de peças artesanais, então criei o
Instagram para a marca, fui em busca das artesãs para produzir as bolsas e
comecei a conciliar a faculdade de Odontologia com a loja”, conta Jani, como é
conhecida. Hoje, ela tem um showroom em um shopping em Lagoa Nova, na zona Sul
de Natal.
Vítor Burratto, de 20 anos, decidiu empreender mais
recentemente. Em março deste ano, ele abriu uma empresa de impressão 3D
(Burratto 3D), que funciona no próprio apartamento, em Nova Parnamirim, na
Região Metropolitana de Natal. “Empreender sempre foi um sonho. Então, fui
estruturando a parte administrativa para conseguir usufruir depois com
tranquilidade daquilo que eu planejei”, revela.
Do mesmo modo que Jani, Vítor também conta com ajuda
da internet para ampliar o alcance do negócio. “Criei uma página no Instagram
para divulgação. Hoje, a demanda é alta, o que significa que as coisas estão
dando certo”, afirma Vítor, que concilia a empresa com um estágio e o curso de
Tecnologia da Informação (TI), da UFRN.
A cada 100 jovens no RN, 8 têm um
negócio próprio
No Brasil, a cada 100 jovens com idades até 29 anos,
16 são donos do próprio negócio, de acordo com a pesquisa Empreendedorismo
Jovem Sob a Ótica da PNAD Contínua, elaborada pelo Sebrae Nacional. No Rio
Grande, o levantamento aponta que oito a cada 100 jovens empreendem, o quinto
maior índice do Nordeste (o Maranhão é o destaque da região, onde 10 a cada 100
jovens são empreendedores).
Quando o comparativo inclui toda a população em
idade de trabalho (dos 14 anos a acima de 60 anos), o índice de empreendedores
jovens no estado fica em 14,9%, o quarto mais alto do Nordeste. O Sebrae-RN
aponta que esses jovens estão inseridos, majoritariamente, no setor de Serviços
(com 11.743 empreendedores no estado).
Em seu negócio, o jovem empreendedor Vítor Burratto
oferece, entre outros serviços, o de impressão de miniaturas, além de decoração
e personalização de peças e presentes. Com um faturamento que gira entre R$ 3,5
mil e R$ 5 mil mensais, a Burratto 3D já representa a principal fonte de renda
de Vítor, que formalizou o negócio (ele é microempreendedor individual – MEI) e
reinveste parte do que fatura na própria empresa. “A formalização é importante,
dentre outros pontos, por causa da simplificação de impostos. Além do que,
acredito que gera maior credibilidade junto ao mercado”, analisa Vítor.
Jani Félix também atua como MEI. Por mês, ela vende
cerca de 10 a 15 bolsas, a preços que variam de R$ 69,90 (a mini bag) a R$ 410,
além de peças no atacado. Um dos diferenciais da marca é adaptar o produto ao
gosto do cliente. “Utilizamos palha de carnaúba, piaçava ou milho. O cliente
pode escolher mesclar cores em uma única bolsa e até pedir um modelo
específico, que nós tentamos desenvolver”, diz.
Quanto à formalização, Jani avalia ser importante
para garantir segurança ao negócio. “Acho super necessário, porque isso auxilia
em situações como a que eu passei. Recentemente, uma empresa de fora do estado
alegou que eu estava copiando a marca dela. No entanto, são marcas diferentes e
a minha é registrada, algo possível graças à formalização”, aponta Jani Félix.
Segundo a pesquisa do Sebrae Nacional, os jovens se
mostraram mais atentos a esse aspecto em todo o país no último quadrimestre de
2025, no comparativo com igual recorte de 2021. Enquanto a formalização dos
negócios liderados por adultos e seniores avançou, respectivamente, 6,7 e 2,2
pontos percentuais (p.p.) no período, o registro de empresas geridas pela
parcela jovem cresceu 7,5 p.p. Ainda assim, a proporção de jovens com CNPJ
(28,4%) ficou 6,3 p.p. abaixo da média total de donos de negócios no Brasil,
que fechou em 34,7% no final do ano passado.
Ravi Brito, da CDL Jovem Natal explica que a
formalização dos empreendedores jovens no RN, embora tenha avançado, ainda é um
desafio. “É um processo lento. O jovem sempre teve dificuldades para abrir uma
empresa e emitir de notas fiscais, porque muitas vezes ele não sabe onde
conseguir as informações para isso.
Mas houve melhorias nos últimos anos, embora não
tenhamos ainda um cenário ideal. A CDL sempre orienta que os empresários
busquem as informações necessárias e se organizem em associativismo, que é bem
melhor do que empreender sozinho”, sugere.
Comércio também atrai jovens
empreendedores no estado
Além do setor de Serviços, a maioria dos jovens
empreendedores no RN atua no Comércio (5.427) e na Indústria (1.310), mas
também há presença importante na Construção (869) e Agropecuária (134). Quanto
às áreas com maior participação desses empreendedores, os destaques são Saúde e
Bem-Estar (2.435 empresas que contam com jovens no quadro societário),
Alimentação (1.895 empresas), Logística e Transporte (1.582), Moda e Confecção
(1.525), Casa e Construção (1.379), Supermercados (1.375), Educação (1.270), Marketing
e Publicidade (1.121), Automobilismo (931) e Administração e Facilities (841
empresas).
Segundo Ravi Brito, da CDL Jovem Natal, a maior
participação nos setores e áreas relacionados tem a ver com a expansão desses
mercados no estado. “Quando a gente fala em Serviços, por exemplo, é preciso
levar em conta que hoje não é preciso uma grande estrutura para montar uma
empresa do tipo. Muita coisa é executada apenas com o uso de internet, com
atendimentos pelo WhatsApp e outros aplicativos. Outro ponto é que áreas como
Alimentação e Saúde e Bem-Estar são segmentos em forte expansão e que se
correlacionam. Basta ver a movimentação atual em torno do nicho de alimentação
saudável. Então, os negócios se desenvolvem a partir dessas necessidades”,
analisa.
David Góis, gerente de Negócios e Inovação do
Sebrae-RN, analisa que, de modo geral, os jovens do estado empreendem pela
vontade de construir uma carreira própria, desenvolver soluções inovadoras e
conquistar autonomia financeira. “Também há um movimento de jovens que iniciam
um negócio para complementar a renda, testar ideias ou transformar habilidades
e talentos em fonte de receita. O ambiente digital ampliou essas
possibilidades, reduzindo barreiras de entrada em diversos segmentos”, diz.
Brasil
No Brasil, segundo a pesquisa do Sebrae Nacional, o
cenário é semelhante ao do Rio Grande do Norte em termos de participação dos
jovens nos diferentes setores econômicos, com destaque para a presença no setor
de Serviços (57%), Comércio (10,8%) e Construção (9,5%). Os homens são maioria
(63,5%), assim como os negros (57,1%).
Grande parte (46,2%) tem ensino médio completo, e um
em cada sete jovens, a exemplo dos empreendedores desta reportagem, conciliam
os negócios com a formação acadêmica. O rendimento médio geral desses
empreendedores é de R$ 2,5 mil, porém com uma importante discrepância entre os
que administram os negócios sozinhos (média de R$ 2,2 mil) e aqueles que também
são empregadores (média de R$ 6,3 mil).
Número de empresas geridas por jovens no
RN
2020: 1.398
2021: 2.092
2022: 3.171
2023: 5.104
2024: 8.581
2025: 15.056
2026: 19.857
Fonte: Sebrae-RN

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