O fechamento das unidades dos restaurantes Nau e
Mangai em Recife, dois dos nomes mais conhecidos da gastronomia nordestina e
com forte presença em Natal, acendeu um sinal de alerta entre empresários do
setor de alimentação fora do lar. No Rio Grande do Norte, a avaliação é de que
o segmento atravessa um dos momentos mais delicados dos últimos anos.
“Nem no tempo da pandemia sofremos tanto quanto agora.”
A afirmação é do presidente da Abrasel no RN, Thiago Machado, ao comentar o
cenário enfrentado pelos estabelecimentos potiguares. A preocupação encontra
respaldo nos números. Levantamento realizado pela associação apontou que 33%
dos bares e restaurantes do estado operaram no prejuízo nos primeiros três
meses deste ano.
Em Natal, alguns dos restaurantes que encerraram
suas atividades recentemente incluem o Restaurante Caicoense (que funcionava no
Natal Shopping), o Duma Cozinha e o tradicional português Santa Maria, que
fechou após mais de duas décadas de funcionamento na capital potiguar.
Segundo Machado, a dificuldade está diretamente
relacionada à incapacidade de repassar custos ao consumidor. Dados da pesquisa
mostram que 47% dos estabelecimentos não realizaram qualquer reajuste nos
preços dos cardápios nos últimos 12 meses, enquanto outros 48% conseguiram
corrigir os valores apenas em linha com a inflação ou abaixo dela.
“O empresário vê seus custos aumentarem, mas
encontra um consumidor com renda apertada e menor disposição para gastar.
Muitos acabam absorvendo os reajustes para não perder clientes, comprometendo
as margens e ampliando o endividamento”, afirma ele.
O problema também se reflete na saúde financeira das
empresas. Boa parte dos estabelecimentos do setor declarou possuir algum tipo
de pagamento em atraso, segundo dados recentes da entidade. Em todos os
levantamentos realizados neste ano, mais de 40% dos bares e restaurantes do Rio
Grande do Norte relataram acúmulo de dívidas.
Para a Abrasel, o quadro é agravado pelo elevado
custo do crédito e pela redução do poder de compra das famílias brasileiras.
Estudos recentes da Confederação Nacional do Comércio (CNC) sobre consumo
indicam que os juros elevados têm levado consumidores a adotar uma postura mais
cautelosa, reduzindo gastos em setores de serviços e lazer, justamente os mais
dependentes da renda disponível.
A pressão sobre os custos também permanece elevada.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), compilados pela
Abrasel, mostram que a inflação continua impactando alimentos e bebidas,
principais insumos do setor, enquanto bares e restaurantes seguem encontrando
dificuldades para repassar integralmente esses aumentos aos consumidores.
A pressão inflacionária sobre custos e insumos
apontada por Thiago Machado não afeta apenas bares e restaurantes. Em busca de
maior competitividade, empresas tradicionais de outros setores têm transferido
parte de suas operações para o Paraguai, atraídas pela chamada Lei de Maquila, que
simplifica a tributação e reduz a burocracia para exportadores. Marcas como
Lupo, JBS e BRF estão entre as companhias que já aderiram ao modelo.
Nesse contexto, o encerramento das operações do Nau
e do Mangai em Recife ganhou significado simbólico para empresários da região.
Inaugurados em dezembro de 2020 na capital pernambucana, os empreendimentos
pertencem a grupos consolidados e mantêm operações de destaque em Natal. O
fechamento reforçou a percepção de que nem mesmo marcas consolidadas estão imunes
às dificuldades enfrentadas atualmente pelo setor.
Embora a Abrasel ainda aposte em uma recuperação
gradual ao longo do ano, a entidade avalia que o momento exige atenção. “O
fechamento de grandes operações mostra que o problema não está restrito aos
pequenos negócios. Toda a cadeia está sentindo os efeitos de um cenário
econômico que comprime receitas, aumenta custos e dificulta investimentos”,
acrescenta Thiago Machado.
Informalidade
O aumento dos custos de produção, os juros elevados
e a retração do consumo, apontada pelo presidente da Abrasel, vêm pressionando
as empresas do setor e limitando sua capacidade de investimento. Nesse
contexto, outro fator que preocupa é o avanço da informalidade.
“Quando a informalidade cresce, os primeiros e mais
impactados são os pequenos negócios e os trabalhadores que atuam dentro das
regras. Empresas que recolhem impostos, cumprem obrigações trabalhistas e
seguem a legislação passam a competir em condições desiguais, o que enfraquece
todo o ambiente econômico, destaca Thiago Machado.
Para a Abrasel, o aumento da informalidade não é
apenas consequência das dificuldades econômicas, mas também um indicativo de
que muitos empreendedores encontram obstáculos para permanecer na formalidade.
O presidente afirma que “isso exige atenção do poder público e a construção de
políticas que estimulem a geração de empregos, reduzam a burocracia e
fortaleçam a competitividade dos negócios formais”, sob pena de, segundo ele,
“a situação se agravar ainda mais no setor de bares e restaurantes”.

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