A pouco menos de cem dias do primeiro turno, um
fantasma que há anos assombra o ex-ministro e pré-candidato ao Senado Rui Costa
(PT) pode ganhar contornos eleitorais e respingar também nas campanhas do
ex-ministro Renan Filho (MDB) ao governo de Alagoas e do ex-governador João
Azevêdo (PSB), pré-candidato ao Senado em outubro. O motivo: além de Costa, os
dois eram governadores quando o Consórcio Nordeste pagou adiantado — e não
recebeu — 300 respiradores hospitalares durante a pandemia.
A menção a Rui Costa foi responsável por levar o
inquérito sobre o caso de volta ao Supremo Tribunal Federal (STF) sob a
acusação de que existe um “crime permanente” desde que o colegiado de
governadores pagou 48 milhões de reais a uma empresa de comercialização de
cannabis para que trouxesse da China os ventiladores e não conseguiu reaver o
dinheiro. Renan e Azevêdo não são investigados, mas adversários políticos têm
como plano usar a presença deles no Consórcio como fator de desgaste.
Os indícios de que a aquisição dos ventiladores
médicos pelo Consórcio Nordeste era suspeita e arriscada sempre foram enormes,
mas mesmo assim a transação foi levada adiante. A Hempcare, paga para importar
o maquinário, havia sido aberta pouco mais de nove meses antes da assinatura do
contrato milionário, apresentava capital social irrisório e sua dona tinha como
principal feito comercial ter importado roupas de praia do mercado chinês.
A fraude nos respiradores é o principal escândalo da
pandemia e, no governo Lula, levou o então ministro Rui Costa a bater de frente
com o diretor-geral da Polícia Federal Andrei Rodrigues, a quem atribuía
ímpetos de perseguição. A PF de Rodrigues estava sob o guarda-chuva do então
ministro da Justiça e atual juiz do STF Flávio Dino, que sempre esteve em
campos opostos a Costa. Por uma dessas reviravoltas da política, Dino é o
relator no Supremo do processo que pode definir o destino do pré-candidato ao
Senado pela Bahia.
Os indícios de que a transação para a compra dos
respiradores cheirava mal foram detectados, por exemplo, por uma auditoria do
Tribunal de Contas da Paraíba, estado governado à época por Azevêdo, que
alertara que a Hempcare apresentava numeração muito baixa de nota fiscal –
000.000.02, da série 1 – o que equivale dizer que não tinha qualquer expertise
no serviço que se propunha a prestar.
O Tribunal de Contas de Pernambuco, por sua vez,
emitiu um “alerta de responsabilização” e determinou que fosse proibido
qualquer negócio na área de saúde com o Consórcio Nordeste porque “em duas
oportunidades as práticas do consórcio já se revelaram inábeis, com expressivos
prejuízos financeiros ao estado de Pernambuco (…) resultando em operações
policiais e inquéritos criminais”.
Embora a calamidade sanitária tenha jogado nas
alturas os valores de insumos para pacientes em todo o país, laudo do
Ministério Público Federal conclui que as cifras pagas exclusivamente pela
Bahia, na época governada por Rui Costa, foram 156% maiores do que a média dos
outros estados brasileiros na pandemia.
De acordo com o MP, ainda que os respiradores
tivessem chegado de fato ao Brasil, o que nunca aconteceu, o Consórcio Nordeste
teria amargado prejuízos de mais de 28 milhões de reais por ter fechado negócio
com preços inflacionados apresentados pela empresa Hempcare, de propriedade de
Cristiana Taddeo.
As negociações eram tão amadoras que o contrato de
importação que previa pagamento adiantado de exatos 48.748.575,82 de reais e
abria mão de garantias comezinhas, como cláusulas contra atrasos e
inadimplência, foi fechado a partir de uma simples ligação telefônica. Um dia
depois de o dinheiro ter caído na conta, Cristiana disse ter recebido “o
contrato assinado digitalmente por Rui Costa, governador do Estado da Bahia e
representante do Consórcio Nordeste”.
Conforme revelou VEJA, Cristiana Taddeo fechou um
acordo de delação premiada em que, entre outros pontos, afirma que:
mencionou pelo menos três vezes o nome de Rui Costa
ao longo de cinco dias de oitivas como investigada e alega que nenhuma
referência ao petista ficou registrada nos autos. “Todas as vezes que eu
mencionei o governador Rui Costa os delegados minimizaram a sua participação
dizendo que ele não tinha nenhum conhecimento sobre as tratativas do contrato”,
declarou.
um advogado designado para defende-la no caso era,
na verdade, advogado pessoal de Rui Costa e parte dos investigadores atuavam
como anteparo para que as acusações não chegassem ao petista.
a delatora disse ter sido vítima de maus tratos no
período em que ficou presa preventivamente na Bahia.
VEJA

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