Os medicamentos da classe GLP-1, conhecidos como
"canetas emagrecedoras", consolidaram-se como uma das maiores
transformações recentes na área da saúde, impactando o tratamento do diabetes
tipo 2, da obesidade e doenças cardiometabólicas.
Porém, apesar dos benefícios clínicos reconhecidos
pelos médicos, o alto custo ainda limita o acesso e a continuidade do
tratamento para grande parte dos pacientes brasileiros.
É o que revela uma pesquisa nacional realizada pelo
Instituto Ifepec, a pedido da Febrafar, com 1.067 médicos de diferentes
especialidades e regiões do país. O levantamento, conduzido em maio de 2026, é
considerado um dos maiores já realizados no Brasil sobre a percepção médica em
relação aos medicamentos agonistas do receptor de GLP-1.
Os dados mostram que o preço atual torna o
tratamento viável para apenas 28% dos pacientes considerados aptos ao uso
dessas terapias. Além disso, 65% dos pacientes acabam abandonando o tratamento
ou não conseguem manter a orientação indicada por limitações financeiras.
Por outro lado, os médicos acreditam que uma redução
de aproximadamente 35% nos preços poderia elevar a viabilidade do tratamento
para cerca de 45% dos pacientes, ampliando significativamente o acesso.
Segundo Edison Tamascia, presidente da Febrafar, os
resultados demonstram que o principal desafio para a expansão dessa classe
terapêutica não está na aceitação médica, mas sim na capacidade financeira da
população.
"Os médicos reconhecem os benefícios dos
medicamentos GLP-1 e observam resultados importantes na saúde dos pacientes. O
grande obstáculo hoje é o custo do tratamento. Quando analisamos que 65% dos
pacientes abandonam a terapia por questões financeiras, fica evidente a
necessidade de ampliar o acesso por meio de maior concorrência e da chegada de
novas opções ao mercado", afirma.
A Febrafar (Federação Brasileira das Redes
Associativistas e Independentes de Farmácias) reúne 74 redes associativistas e
representa mais de 19 mil lojas em todo o Brasil.
Uso irregular preocupa médicos e reforça
papel do farmacêutico
A pesquisa também identificou um fenômeno que vem
preocupando os profissionais de saúde. Em média, 7% dos pacientes relatam já
ter utilizado medicamentos GLP-1 sem prescrição médica antes da primeira
consulta.
O dado acende um alerta para a comercialização
irregular desses produtos e reforça a importância de combater canais
clandestinos de venda, que colocam em risco a saúde dos pacientes ao oferecer
medicamentos sem a devida orientação profissional e sem o cumprimento das
exigências sanitárias.
Para Tamascia, as farmácias legalmente estabelecidas
cumprem rigorosamente a legislação e têm papel fundamental na promoção do uso
racional dos medicamentos. "O combate à comercialização irregular desses
medicamentos é fundamental para proteger a saúde da população. O lugar desses
tratamentos é dentro do canal farmacêutico regular, com dispensação responsável
e acompanhamento profissional", afirma.
Segundo o executivo, além de garantir o cumprimento
das normas sanitárias, o farmacêutico exerce uma função estratégica na
orientação dos pacientes sobre armazenamento, aplicação, uso correto e
importância do acompanhamento médico durante todo o tratamento.
Biossimilares e similares podem
transformar o mercado
Outro destaque da pesquisa é o elevado grau de
expectativa dos médicos em relação à chegada de biossimilares, genéricos e
similares de GLP-1, impulsionada pelo vencimento de patentes e pela perspectiva
de ampliação da concorrência no setor.
Os resultados indicam que a maioria dos
profissionais pretende incorporar essas novas alternativas à prática clínica,
desde que apresentem comprovação de qualidade, segurança e eficácia.
Edison Tamascia afirma que a ampliação da oferta
tende a representar um marco para o mercado farmacêutico brasileiro. "A
expectativa é que a entrada de novos concorrentes contribua para ampliar a
concorrência e reduzir gradualmente os preços praticados atualmente. Embora os
medicamentos genéricos ainda não devam chegar ao mercado no curto prazo, o
aumento da oferta tende a favorecer o acesso e melhorar os índices de adesão ao
tratamento".
Benefícios vão além da perda de peso
Os médicos entrevistados destacaram que os
benefícios dos medicamentos GLP-1 vão muito além do emagrecimento. Entre os
principais ganhos observados estão o controle glicêmico em pacientes com
diabetes tipo 2, a redução da compulsão alimentar, a perda de peso
significativa, além da proteção cardiovascular, renal e hepática.
Também foram relatadas melhorias em comorbidades
associadas à obesidade, como apneia do sono, dores articulares, hipertensão e
alterações metabólicas.
Entre os efeitos adversos mais frequentemente
relatados pelos médicos estão náuseas, constipação, vômitos, diarreia, azia,
dores de cabeça, fadiga, tontura e, em alguns casos, perda de massa muscular e
alterações estéticas decorrentes da rápida perda de peso.
Para a Febrafar, os resultados indicam que o mercado
brasileiro de GLP-1 ainda possui amplo potencial de crescimento, mas que sua
expansão sustentável dependerá da combinação entre acesso econômico, orientação
profissional e uso responsável.
"A pesquisa mostra que existe um ambiente muito
favorável para o crescimento dessa categoria no Brasil. No entanto, esse avanço
precisa ocorrer com responsabilidade, acompanhamento médico, atuação ativa dos
farmacêuticos e foco na segurança do paciente. O desafio agora é transformar
uma terapia altamente eficaz em uma solução acessível para um número cada vez
maior de brasileiros", conclui Tamascia.
CNN Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário