segunda-feira, 4 de maio de 2026

Rejeição de indicado ao Supremo é ato sem volta, e Lula entra no 'modo sobrevivência'

 


Em entrevista ao repórter Fernando Rodrigues em 2006, o marqueteiro João Santana explicou o fenômeno popular de Luiz Inácio Lula da Silva pela existência de “dois Lulas” no imaginário popular: um trabalhador humilde que virou “fortão” e, ao mesmo tempo, o pobre, vítima do preconceito das elites, o “fraquinho”. Vinte anos depois, o conceito segue atual para entender como Lula pretende virar o jogo faltando cinco meses para a eleição.

O primeiro sinal do Lula “fraquinho” veio no pronunciamento em rede nacional de TV do Primeiro de Maio, quando acusou “o sistema” de jogar contra seu governo:

— Os obstáculos que temos pela frente são enormes. Cada vez que damos um passo adiante para melhorar a vida do povo brasileiro, o sistema joga contra. O andar de cima, os bilionários, a elite que só pensa em manter privilégios às custas do povo. Se dependesse do sistema, nem a escravidão teria sido abolida no Brasil.

Um parêntese. Soa ridículo que o partido no poder no Brasil por 18 dos últimos 24 anos agora pose de antissistema, mas o marketing político tem dessas embromações. Deputado do Centrão por sete mandatos consecutivos, Jair Bolsonaro posou de antissistema em 2018 e deu certo. Fecha parêntese.

O Lula “fortão” reaparece com o lançamento hoje do Desenrola 2, o programa de refinanciamento de dívidas bancárias de mais de 30 milhões de brasileiros a juros abaixo de 2% ao mês. O discurso vai reforçar a identidade de que apenas um trabalhador no poder poderia fazer um acordo com os bancos para favorecer outros trabalhadores.

Em propaganda do PT, Lula surge como o símbolo do fortão. A música, um sertanejo com sanfona de forró, é uma narrativa da superação e do trabalho duro. Diz a letra:

“Já levei muita pedrada/ já falaram sem saber/ teve gente desejando me ver cair, me ver sofrer/ mas eu sou raiz de campo/ sou poeira e sou chapéu/ quanto mais o vento soca/ mais eu firmo o pé no chão (.) Eu não paro/ eu não quebro/ eu não largo minha fé/sou peão de esperança/ com poeira no pé”.

O tom de confronto vai ganhar volume com o avanço das discussões na Câmara para o fim da jornada 6x1. A votação do projeto deve ocorrer até a última semana de maio. A campanha do governo será de “nós contra eles”, repetindo a fórmula que deu certo no ano passado, quando o Congresso virou “inimigo do povo” e terminou aprovando por unanimidade a isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil. Será novamente o Lula “fraquinho” enfrentando o “sistema”, o chavão para atacar ricos, patrões, congressistas, a família Bolsonaro ou o governo Donald Trump.

No calendário governista, a votação do fim do 6x1 deve coincidir com as primeiras revelações da delação do banqueiro Daniel Vorcaro sobre o esquema de favores envolvendo governadores, senadores, deputados e ministro do STF, ou seja, “o sistema”.

Depois da rejeição de Jorge Messias no Senado, dois ministros e um ex-ministro me disseram que Lula só tem a ganhar com uma delação ampla, geral e irrestrita no caso Master. Perguntados qual seria a reação se o inquérito da Polícia Federal envolver petistas da Bahia ou ministros do STF aliados do governo, a resposta foi igual:

— Azar o deles.

Thomas Traumann - O Globo

 

 

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