O presidente Lula (PT) pediu um levantamento sobre
cargos indicados pelo centrão na máquina federal, visando retaliações pontuais
a quem colaborou para as recentes derrotas do governo no Congresso. O
presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), a despeito de ter sido
o grande articulador dos reveses do Planalto, deve ser poupado em um primeiro
momento.
As derrotas em questão são a rejeição histórica da
indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao STF (Supremo Tribunal
Federal), e a derrubada do veto do presidente Lula ao projeto de dosimetria,
ambas no fim de abril. A proposta reduz as penas dos condenados por tentativa
de golpe de Estado, inclusive a do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
A ordem é que as demissões sejam feitas sem alarde,
pingadas e em cargos menores, que ficam na ponta dos órgãos públicos. O
Planalto considera que um "exoneraço" seria o mesmo que imprimir um
recibo das derrotas em pleno Diário Oficial da União.
O levantamento ainda está sendo feito pela
Secretaria de Relações Institucionais, mas alguns nomes já começaram a ser
demitidos. Os nomes são analisados caso a caso, para evitar dano colateral.
Segundo integrantes do Palácio do Planalto, as
demissões iniciais atingiram indicados de parlamentares que se diziam
governistas, mas já vinham num processo de distanciamento de Lula e votaram a
favor da derrubada do veto à Lei da Dosimetria, no último dia 30.
Ao contrário da rejeição de Messias, a derrubada do
veto teve votação aberta. Com o desenho dos palanques nos estados ficando cada
vez mais claro, o Planalto quer desidratar quem com certeza não ajudará o
presidente em sua tentativa de reeleição.
O cálculo é que a troca "na ponta" de
indicados por parlamentares que não estarão com Lula por nomes de aliados deve
ajudar o governo no chamado "voto de estrutura". Para prefeitos, fica
mais interessante apoiar parlamentares alinhados ao Planalto quando há aliados
em postos-chave para liberação de recursos e execução de obras, por exemplo.
Já com Alcolumbre, a postura é um pouco diferente.
Num primeiro momento, narram interlocutores, Lula ficou irritado e queria
extirpar da máquina federal os indicados pelo presidente do Senado e outros
nomes do centrão e da base que colaboraram com a derrota de Messias. Foi a
primeira vez em mais de 130 anos que a Casa rejeitou uma indicação ao STF.
Lula, destacam aliados, acabou seguindo sua máxima
de que é melhor "dormir com um problema e acordar com uma solução"
que tomar decisões precipitadas. O governo viu na derrota de Messias o
surgimento de uma possível bandeira de campanha antissistema, por causa da ação
do centrão com oposição para barrar a CPI do Banco Master, e decidiu manter as
pontes com Alcolumbre.
Após o presidente do Senado avisar a emissários do
Planalto que deseja um encontro pessoal com Lula para encerrar o caso de
Messias, o governo nomeou um indicado de Alcolumbre para uma diretoria da
Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba).
A nomeação de Marcio Adalberto Andrade como diretor
da Área de Desenvolvimento e Infraestrutura da Codevasf foi acordada ainda
quando a articulação política do governo era comandada por Gleisi Hoffmann
(PT), que deixou o ministério para concorrer ao Senado no Paraná. O novo
ministro, José Guimarães (PT), manteve o acordo fechado pela sua antecessora.
Em paralelo, o governo também acelerou o empenho de
emendas parlamentares de bancadas estaduais, principalmente as aliadas. Para o
Amapá, foram R$ 249,2 milhões em emendas após a derrota de Messias. Para
Alcolumbre, foram empenhados R$ 21,7 milhões em emendas individuais.
Esses gestos traduzem a ordem de Lula, que por fim
disse "segue a vida" a aliados, ordenando a manutenção de pontes com
o senador. O governo depende da boa vontade do presidente do Senado para
aprovar propostas importantes.
Estão para ser votadas na Casa, por exemplo, as PECs
(Propostas de Emenda à Constituição) do Suas (Sistema Único de Assistência
Social) e a da Segurança Pública. O projeto que regulamenta a exploração de
minerais críticos também aguarda análise dos senadores.
O fim da escala 6x1, prioridade legislativa do
governo para a eleição, também precisará passar pelo Senado. A PEC está na
Câmara e deve ser votada até o final de maio. Ou seja, o Planalto precisará de
toda a ajuda para aprová-la também no Senado até junho, mês que naturalmente é
mais conturbado pela intensificação da pré-campanha e pelo início da Copa do
Mundo.
Folha de São Paulo

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