Kayllani Lima Silva
Repórter
Os empreendimentos da Via Costeira foram
responsáveis por R$ 6,4 milhões da arrecadação anual do Governo do Rio Grande
do Norte por meio do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS)
em 2025. Ao todo, o governo arrecadou R$ 9,2 bilhões com o imposto em todo o
Estado no ano passado. Segundo dados da Secretaria de Fazenda (Sefaz/RN), para
efeito de comparação, a arrecadação da Via Costeira corresponde a 61,55% do
valor arrecadado pela Praia da Pipa, que gerou R$ 10,5 milhões em ICMS em 2025.
O valor, no entanto, considera apenas os estabelecimentos comerciais da praia,
ou seja, não considera Tibau do Sul integralmente.
O economista Thales Penha, professor da Universidade
Federal do Rio Grande do Norte, avalia que a participação da Via Costeira na
arrecadação total do ICMS no Estado é um reflexo da participação do Turismo no
Produto Interno Bruto (PIB) potiguar. Os dados mais recentes divulgados pelo
IBGE sobre o PIB no país apontam que o RN teve o maior crescimento no indicador
entre os estados do Nordeste em 2023. A variação positiva foi de 4,2%, com o
índice saindo de R$ 93,8 bilhões, em 2022, para R$ R$ 101,7 bilhões no ano
seguinte.
“[O turismo] é um setor importante, mas
complementar. Por mais que se expanda, não consegue ter essa capacidade [muito ampliada],
pois não gera tanto encadeamento como o setor de energia elétrica, por exemplo,
que faz com que esse peso da arrecadação seja maior”, aponta o economista.
Em relação à diferença na arrecadação entre o polo
de Pipa e a Via Costeira, Thales Penha esclarece que o cenário pode ser
explicado pelo maior número de estabelecimentos comerciais nos arredores da
praia do litoral sul. “A hospedagem não paga ICMS. O ICMS [pago pelos] hotéis
da Via Costeira é apenas sobre consumo de algum produto do estabelecimento.
Como Pipa tem muito mais estabelecimentos de circulação de mercadoria, como
restaurantes, bares, mercados, lojas de roupas e outros artigos, o valor
arrecadado é bem maior”, completa.
O economista Ricardo Valério, superintendente do
Conselho Regional de Economia do Rio Grande do Norte (Corecon/RN), traz uma
outra leitura sobre o cenário da arrecadação na Via Costeira. Segundo ele, o
menor valor arrecadado em comparação à praia da Pipa pode ser explicado pelos
anos em que a capital potiguar passou com um modelo urbanístico que estacionou
o desenvolvimento local.
Por conta disso, avalia o superintendente, a rede
hoteleira da Via Costeira segue com apenas 11 empreendimentos. “Nossa Via
Costeira é uma área nobre, de uma beleza inigualável e com muitos atrativos
para os turistas, mas que precisa ter novos equipamentos. A lei que trata das
áreas de interesse turístico e paisagístico (AEITPs) pode levar aos
desenvolvimento da região, além da conclusão do restante dos equipamentos
previstos no local”, aponta.
A Lei nº 7.801/2024, que define o uso e a ocupação
do solo, além de estabelecer prescrições urbanísticas para as AEITPs, é alvo de
uma ação do Ministério Público do Estado (MPRN) que pede a anulação da
legislação. O Órgão alega falta de estudos para a aprovação da lei. Em novembro
do ano passado, a Justiça suspendeu a emissão de novas licenças urbanísticas e
alvarás de construção autorizados com base na norma.
Embora defenda o rigor dos critérios ambientais,
Ricardo Valério aponta que vetos à nova legislação podem distanciar ainda mais
o desenvolvimento da Via Costeira em relação a Pipa. “Os hoteis da Via Costeira
são ótimos, mas precisam de equipamentos complementares, como bares,
restaurantes e outros atrativos para não deixar os hoteis isolados ao longo dos
seus 9 km”, completa o superintendente do Corecon/RN.
Ele esclarece que a efetivação do novo acesso à
praia da Pipa, por exemplo, deve dinamizar ainda mais o turismo no local. Outro
diferencial está no fato da região praticamente não apresentar baixa estação,
recebendo turistas o ano inteiro, enquanto que a ocupação da Via Costeira é
maior durante épocas de alta estação.
Uma avaliação semelhante é repercutida pela
Secretaria de Turismo do Rio Grande do Norte (Setur/RN). Em resposta à
reportagem, a pasta afirma que a diferença na arrecadação entre os polos de
Pipa e da Via Costeira está relacionada ao perfil de ocupação e ao nível de
integração da avenida com a dinâmica urbana e turística da cidade. Por muito
tempo, aponta, a região esteve dedicada quase exclusivamente à hotelaria, com
pouca diversidade de atrativos para o público.
“No entanto, avaliamos que esse contexto está em
processo de transformação. A implementação de novos projetos estruturantes e a
requalificação da Via Costeira ampliam o potencial de circulação de turistas e
da população local, estimulando o consumo, a permanência no destino e a
dinamização da economia”, aponta a Setur/RN.
Para o presidente da ABIH-RN, Edmar Gadelha, a Via
Costeira ainda não consolidou sua transformação em um destino completo,
funcionando como um corredor hoteleiro e local de passagem. De acordo com dados
da Associação, atualmente os empreendimentos da Via somam aproximadamente 6,7
mil leitos, enquanto Pipa dispõe de mais de 15 mil leitos e dinamização entre
diversos setores da economia local, como comércio, restaurantes, passeios e
serviços.
O presidente da entidade reforça, no entanto, que
competir e superar o desempenho de polos como Pipa exige não apenas expansão de
capacidade hoteleira, mas principalmente uma estratégia para transformar a Via
Costeira em um destino completo. “Essa disparidade [em relação a PIPA] reforça
a urgência de repensar o modelo de gestão da Via Costeira, com a implementação
de projetos estruturantes que integrem os hotéis à paisagem urbana, criem
calçadões atrativos e convidativos, promovam eventos regulares e assegure um
acesso seguro e qualificado para moradores e visitantes”, aponta.
Hotéis pagaram pelo menos R$ 11,1
milhões em ISS e IPTU
Além do ICMS para o Estado, os empreendimentos da
Via Costeira contribuem para a arrecadação da Prefeitura do Natal por meio do
pagamento do Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS) e do Imposto
Predial e Territorial Urbano (IPTU). De acordo com a Sefaz/RN, a maior parte da
receita gerada pelos hotéis tem origem na área de serviços.
A reportagem da TRIBUNA DO NORTE questionou a
Secretaria Municipal de Tributação (SEMUT) da capital potiguar sobre a
arrecadação anual do município com os impostos pagos pelos hotéis, bares e
serviços do local e o quanto o valor representa da arrecadação total da
prefeitura, mas a pasta não enviou os dados até o fechamento desta edição.
Apesar da ausência dos dados gerais, um levantamento
realizado pela TRIBUNA DO NORTE junto a hotéis instalados na Via Costeira
aponta que os empreendimentos contribuíram com pelo menos R$ 11,1 milhões em
ISS e IPTU em 2025. O valor corresponde ao total pago por apenas quatro hotéis.
Outros cinco representantes não retornaram ao pedido e um informou que a
informação não poderia ser divulgada em virtude da política interna.
Apenas um dos hotéis da Via Costeira pagou R$ 2,3
milhões em ISS e R$ 600,4 mil em IPTU no ano passado. O representante do
empreendimento, que prefere não ser identificado, aponta que há um estudo de
expansão das operações na Via Costeira, mas a insegurança jurídica para
investir no local tem impedido o avanço desse interesse.
Ele aponta que atualmente o Governo do Estado não
apresenta um alinhamento junto ao Ministério Público do Estado (MPRN) para dar
mais segurança aos investidores que desejam construir no local.
A reportagem da Tribuna do Norte questionou a
Procuradoria Geral do Estado (PGE) sobre as perspectivas de crescimento na
arrecadação estadual com o destravamento dos impasses envolvendo os acordos de
concessão de sete terrenos na Via Costeira. Atualmente, a PGE busca a aprovação
de aditivos para precisar as construções na área e adaptar as regras ao Plano
Diretor de Natal (PDN). Em resposta, o órgão informou não ser possível realizar
uma previsão, uma vez que os empreendimentos ainda não foram efetivados.

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