Passado o carnaval, a campanha eleitoral começa a
pegar para valer. A polêmica em torno do enredo enaltecendo Lula serviu para
implodir a ideia de que enfrentar Flávio Bolsonaro seria um passeio no bosque
pelas fragilidades do senador e pelo desgaste do sobrenome. A realidade se
mostra mais complexa.
Além de a pesquisa Quaest ter mostrado reversão da
ideia inicial de que Bolsonaro errou ao indicar o filho para lhe suceder,
Flávio vem avançando silenciosamente numa costura de palanques que vai fechando
os espaços para que Lula construa uma coalizão forte em estados-chave.
Nessas conversas, o PL tenta quebrar a resistência
existente nos partidos do Centrão em caminhar com ele. A tentativa é oferecer a
essas siglas um “pacotão” que torne palatável o apoio nacional a Flávio a
partir de concessões em colégios eleitorais importantes.
Um dos combos apresentados aos dirigentes inclui o
governador de Minas Gerais, Romeu Zema, como vice do filho de Jair. Além disso,
o PL desistiria do balão de ensaio da candidatura de Nikolas Ferreira em Minas
para retomar a ideia inicial de apoio a Mateus Simões, vice-governador que se
filiou ao PSD.
Outro aceno ao partido seria convencer Tarcísio de
Freitas a dar a vice ao próprio Gilberto Kassab, sem intermediários. Isso faria
dele o candidato ao Palácio dos Bandeirantes em 2030, caso Tarcísio seja
reeleito. Flávio também recuou alguns passos da exigência que vinha fazendo
para que Tarcísio trocasse o Republicanos pelo PL — desde, é claro, que o
partido integre sua chapa ampla.
No Rio, embora o nó tático do prefeito Eduardo Paes
tenha facilitado muito seu próprio caminho ao governo do estado, complicou a
vida de Lula, que passa a contar com um palanque menos convicto. Tendo como
vice Jane Reis, do poderoso clã da Baixada Fluminense, Paes explicita que topa
abrir seu próprio palanque para Flávio, como o patriarca Washington Reis tratou
de deixar bem claro.
Por fim, noutro estado estratégico, o Paraná, é
costurado um acordo para tentar retirar a pré-candidatura ao governo do senador
Sergio Moro, facilitando o caminho para o governador Ratinho Junior fazer seu
sucessor sem percalços.
Não está dado que esse arranjo vá prosperar, mas as
negociações acontecem enquanto o PT demora em definir sua própria aliança, com
dificuldade para atrair o MDB e dúvidas quanto à conveniência de desalojar o
PSB de Geraldo Alckmin da vice de Lula.
A última pesquisa Quaest já havia mostrado um dado
surpreendente: Flávio foi rapidamente assimilado pelo eleitorado de direita,
que passou a considerar que o pai acertou ao escolhê-lo. Isso já deveria ter
soado um alarme no Q.G. lulista, que aposta todas as fichas na “facilidade”
maior de enfrentar alguém da família, pela rejeição enorme a Bolsonaro.
Acontece que a batalha das rejeições também se dá na
margem de erro, tornando esse cuidado com os arranjos regionais um fator que
pode ser decisivo numa eleição que se anuncia de novo como muito acirrada.
Também não contribuiu em nada para que Lula reduza
sua desvantagem em faixas específicas do eleitorado o maior de todos os tiros
no pé do malfadado desfile da Acadêmicos de Niterói: as latas retratando jocosamente
as famílias conservadoras.
Por mais que o PT e o Planalto batam na tecla de que
não sabiam o que havia no enredo desfilado, a presença empolgada de Lula, Janja
e ministros enquanto a escola passava funciona como associação e chancela.
Falar em “reaproximação” com esse público soa descolado da realidade: só se
pode refazer proximidade que um dia já existiu — e não é o caso.
Nos bastidores e nos holofotes, a costura de Flávio
Bolsonaro tem sido facilitada pelos erros de Lula. E muitos decorrem de uma autoconfiança
que as pesquisas e o cenário político não autorizam.
Vera Magalhães - O Globo

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