terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Ricardo Corrêa: Os avisos de Alcolumbre ao governo Lula e ao STF em seu discurso ao abrir os trabalhos no Congresso

 


Ao adentrar os salões do Parlamento de braço dado com o ministro da Casa Civil, Rui Costa, e ao cumprimentar efusivamente a ministra Gleisi Hoffmann e o líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), exibia um clima ameno. Na mesa, risonho até no Hino Nacional, expunha um momento que nem de longe espelhava como terminou 2025 na relação entre os Poderes, em especial com o Executivo. Mas bastou discursar para deixar claro que a disposição para conversar não o faria arredar da disposição para enfrentar a “voluntariedade” de outros Poderes em eventuais avanços sobre o Parlamento.

Os recados no discurso de abertura do ano do Legislativo foram direcionados para o Supremo Tribunal Federal, presente na cerimônia por meio do presidente da Corte, o ministro Edson Fachin, e para o governo Lula, de quem Rui Costa era ali o representante.

E a mensagem de Alcolumbre já podia ser lida desde o momento dos cumprimentos, quando elogiou o discurso de Fachin na abertura do ano do Judiciário, no qual o ministro reconheceu “o protagonismo do sistema político nas funções que são dele”.

Ao tratar da importância do ano eleitoral em que a democracia pode mostrar sua força, maturidade e vitalidade, Alcolumbre pediu paz, não apenas entre as forças políticas que pensam diferente, mas entre “entre as institucionais nacionais, paz entre os Poderes da República”. Para depois dar seu recado mais contundente aos vizinhos da Praça dos Três Poderes.

“Defender a paz nunca foi e nunca será sinônimo de omissão. Nosso desejo de paz não significa que tenhamos medo de luta. Nossa luta e sempre será em defesa de todos os brasileiros. Nossa luta é pelo Estado de Direito. Nossa luta é pelas prerrogativas parlamentares e pela autoridade do Congresso Nacional brasileiro”, enfatizou, dizendo que “dessas batalhas”, jamais abrirá mão.

Após jurar que buscará “não ampliar conflitos, mas ajudar a resolver” e promover “consensos políticos”, ele voltou ao ponto de maior stress na relação com o STF, por diversas vezes acusado pelo Parlamento de legislar e com quem o Congresso trava uma batalha em meio à ofensiva judicial sobre a falta de transparência nas emendas. “Cada Poder tem a sua função. Cada poder tem o seu papel”, disse, para reafirmar “as escolhas do Poder Legislativo”. “Que seja respeito recíproco”.

Antes dos recados ao STF, Alcolumbre também mirou no governo federal, após um ano em que a defesa das pautas da gestão petista gerou críticas ácidas ao Parlamento em peças publicitárias, nas redes de deputados e senadores de equerda e, por vezes, até na de ministros do governo.

Ao exaltar a aprovação de medidas enviadas pelo Executivo ao Congresso, em especial a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil, Alcolumbre deixou claro que não aceitará apenas chancelar as medidas para que os louros fiquem apenas no Palácio do Planalto. “Essas conquistas não pertencem a um governo, elas também não pertencem a um partido”.

Após sorrisos e abraços, ao abrir os trabalhos de 2026, Alcolumbre exibiu-se disposto a fumar o cachimbo da paz, mas não sem mostrar-se pintado para a guerra.

Ricardo Corrêa - Estadão

 

 

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