terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Juros e economia mais lenta explicam freio na geração de empregos no RN

 


Cláudio Oliveira
Repórter

Entidades empresariais e a Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Rio Grande do Norte (Sedec) convergem na avaliação de que a desaceleração na geração de empregos formais em 2025 reflete um ambiente econômico menos favorável, marcado por juros elevados, desaceleração do crescimento e perda de dinamismo em setores sensíveis ao consumo e ao investimento. Ainda assim, destacam que o saldo positivo no acumulado do ano demonstra resiliência da economia potiguar em um contexto nacional igualmente mais moderado.

Apesar de o estado ter encerrado o ano no azul, com 15.870 vagas, o resultado foi o menor desde a pandemia da covid-19 e representou uma queda superior a 50% na comparação com 2024, quando foram criados mais de 34 mil postos formais.

Na avaliação do secretário-adjunto de Desenvolvimento Econômico do RN, Hugo Fonseca, o comportamento do mercado de trabalho potiguar acompanhou a tendência observada no país. Segundo ele, a política monetária restritiva adotada pelo Banco Central para conter a inflação teve impacto direto sobre o ritmo da economia. “Como conseqüência, há a desaceleração da economia com a diminuição no volume de contratação. O Brasil estava crescendo na casa dos 3,4% em 2024, bem acima do patamares dos países emergentes, fora China e Índia”, afirmou.

O diagnóstico é compartilhado pela Fecomércio RN. O presidente da entidade, Marcelo Queiroz, ressaltou que, embora comércio e serviços tenham liderado a geração de vagas no estado em 2025, o saldo foi consideravelmente menor do que no ano anterior. Para ele, o resultado está diretamente ligado à desaceleração da economia potiguar, que saiu de um crescimento estimado em 6% em 2024 para cerca de 2% em 2025. “Esse comportamento do RN acompanha a economia brasileira, que também desacelerou em crescimento e geração de empregos”, avaliou.

Além do cenário macroeconômico, a Fecomércio aponta fatores locais que impactaram diretamente os setores que representa. Entre eles, estão o aumento da carga tributária, os juros elevados e a concentração do crescimento econômico na capital, o que limita a expansão do consumo e da atividade nos municípios do interior. Segundo a entidade, comércio e serviços dependem fortemente do desempenho da economia local e sentem de forma mais intensa quando o interior cresce menos. “Os maiores desafios ao crescimento encontram-se na área de infraestrutura, rodovias e saneamento, principalmente. Segurança jurídica para investimentos é outro ponto de especial atenção a que o poder público tem de estar atento”, diz o presidente da Fecomércio.

Quanto ao mês de dezembro, a retração no mercado de trabalho formal já é esperada, segundo Queiroz, “em razão de fatores sazonais, como a demissão dos temporários contratados nos meses anteriores por conta das festas do final do ano e a conclusão de contratos públicos e privados”.

Na indústria, a leitura é semelhante. Dados analisados pelo Observatório da Indústria Mais RN, ligado à FIERN, indicam que, embora 2025 tenha mantido saldo positivo de empregos, houve perda de intensidade na geração de vagas. De acordo com o assessor técnico Pedro Albuquerque, a produção e a geração de novas vagas de trabalho formal na indústria estão correlacionadas.

“A percepção de queda da produção, especialmente no petróleo e gás e estabilização em outros setores como indústrias extrativas (+0,78%) e alimentos (+0,74%) corroboram a percepção de que, mesmo diante de 2025 positivo, revela-se pior que 2024”, destaca.

Conforme dados do IBGE, a produção industrial potiguar registrou queda de 2,3% em novembro de 2025, na comparação com o mesmo mês do ano anterior, e acumulou retração de 11,8% entre janeiro e novembro. O Observatório analisou que entre as micro e pequenas indústrias a queda se verifica desde outubro de 2024, alcançando os menores valores dos últimos anos, chegando a 39 pontos em abril e, atualmente, medindo 43 pontos (o que revela completa desconfiança do setor com o futuro); o Índice de Utilização da Capacidade Instalada (UCI) das fábricas caiu de 78% em 2024 para 72% em 2025 e, por fim, o Índice de produção caiu de 51,6 pontos para 42,4 pontos neste ano. “Por tudo isso, se confirma um 2025 mais desafiador que 2024 com perspectivas para estabilização em 2026”, prevê Albuquerque.

Estabilidade no agro

A Federação da Agricultura, Pecuária e Pesca do Rio Grande do Norte (Faern) destacou que a avaliação é de maior estabilidade no campo e que o saldo positivo de empregos formais, mesmo em um cenário de desaceleração econômica, evidencia a resiliência do setor e sua importância para a ocupação no estado, especialmente em regiões onde a atividade agropecuária tem peso relevante.

O presidente da entidade, José Vieira, diz que os subsegmentos que mais contribuíram para o saldo positivo foram aqueles ligados ao cultivo e à colheita. “Com destaque para a fruticultura irrigada, atividade estruturante no Vale do Açu e no Oeste potiguar. Cadeias como melão, melancia e banana mantiveram demanda consistente por mão de obra formal ao longo do ano, sustentando o desempenho do setor”, destacou. O comportamento mensal, no entanto, apresentou oscilações, com retração em dezembro, reflexo da sazonalidade típica das atividades agrícolas e da redução de contratos temporários após os períodos de colheita.

Atividades com ciclos curtos ou concentrados registraram retração de vagas em dezembro, refletindo a vulnerabilidade dos contratos temporários e a oscilação natural da atividade agrícola. A pecuária, por sua vez, manteve estabilidade, mas com menor capacidade de geração líquida de empregos.

Para ele, a valorização do trabalho rural, com estímulo a vínculos mais longos e previsíveis, é fundamental para reduzir a rotatividade e ampliar a formalização. “A qualificação profissional, área em que o Senar tem atuado de forma decisiva, deve seguir alinhada às demandas tecnológicas e operacionais das cadeias produtivas do estado”, disse o presidente.

Além disso, Vieira defende que o aprimoramento da infraestrutura rural (estradas, logística, energia e conectividade) é essencial para reduzir custos e ampliar a competitividade das atividades agropecuárias. “O fomento à agregação de valor, à diversificação produtiva e à adoção de tecnologias que reduzam a sazonalidade também pode contribuir para gerar oportunidades formais mais estáveis”, disse ele.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário