O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), que também
é ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, é um dos poucos
integrantes do primeiro escalão do governo federal a comparecer a um camarote
da Sapucaí para prestigiar o desfile da Acadêmicos de Niterói, que tem como
tema a trajetória do presidente Lula. A deferência a Lula, antigo adversário
eleitoral nos tempos em que PSDB e PT dominaram a política nacional, ocorre em
um momento em que o ex-governador de São Paulo foi colocado na frigideira e
corre o risco de ser desconvidado do posto de vice na chapa à reeleição.
Os argumentos de Lula são conhecidos. A disputa com
o candidato do bolsonarismo vai ser dura, especialmente em São Paulo, que
concentra 22% do eleitorado do país. Apesar do governador Tarcísio de Freitas
(Republicanos) ser considerado favorito para a reeleição no Estado, é
importante ter um candidato forte ao Palácio dos Bandeirantes para dar um
palanque a Lula. Eis porque o presidente afirmou que Alckmin e Fernando Haddad,
ministro da Fazenda, têm um “papel a cumprir” em São Paulo.
Não importa que as chances de vitória de um ou outro
sejam pequenas. Lula está disposto a sacrificar dois dos seus aliados com maior
peso eleitoral no altar do projeto presidencial. Para Haddad, que é um quadro
histórico do PT, isso pode acabar se tornando inevitável, um dever de soldado.
Para Alckmin, ser relegado ao papel de boi de piranha eleitoral seria uma
retribuição mesquinha por seus serviços prestados na vitória de Lula contra
Jair Bolsonaro em 2022 e pela lealdade que demonstrou na função de vice. Ele
aventa a possibilidade de não disputar cargo algum caso seja retirado da chapa
de Lula.
O cargo de Alckmin também está sendo rifado porque
Lula e uma parte do PT acreditam que seria muito útil ter, desta vez, um vice
do MDB em seu lugar. O partido do ex-presidente Michel Temer, aquele que os
petistas acusam de ter dado um golpe em Dilma Rousseff, em tese ajudaria Lula a
atrair um naco do Centrão para sua campanha. Aposta arriscada. O MDB já não tem
a força de outros tempos nos rincões do país ou mesmo no Congresso Nacional.
Além disso, muitos de seus diretórios estaduais são contra uma aliança com
Lula, o que poderia levar a um racha interno. Atrair o PSD de Gilberto Kassab
para a função seria um prêmio maior — mas, no momento, improvável.
O PSB, obviamente, defende com unhas e dentes a
manutenção de seu correligionário Alckmin como vice. Tanto João Campos,
presidente do partido e prefeito do Recife (PE), quanto Márcio França, ministro
do Empreendedorismo que pleiteia disputar o governo de São Paulo, usam a mesma
expressão para advogar pela continuidade de Alckmin: “Em time que está ganhando
não se mexe.”
Mas essa pode ser justamente uma das razões
implícitas para a relutância de Lula em repetir a dobradinha com Alckmin. O
petista é conhecido por cortar as asas de quem cresce demais sob sua sombra e
muitos integrantes de seu partido desconfiam de qualquer um que ganhe
protagonismo fora da legenda. Em pelo menos duas frentes, o governo Lula se tornou
bastante dependente de Alckmin.
A primeira é a relação com o empresariado, uma
agenda que é praticamente toda concentrada no vice/ministro da Indústria. A
segunda é a negociação para a retirada das tarifas sobre produtos brasileiros
impostos pelos Estados Unidos. Ainda que o período mais crítico dessas
conversas tenha ficado para trás e o diálogo direto entre Lula e o presidente
americano Donald Trump tenha sido aberto (inclusive com ajuda de Alckmin),
ainda há negociações em andamento sobre setores que não receberam isenção.
Toda lealdade tem limites. Um deles é o dever de
cuidado consigo mesmo e com terceiros. Abandonar aliados fieis resulta na
quebra do contrato psicológico de confiança que sustenta a lealdade, a qual
exige um comportamento de mão dupla. Como essa quebra ainda não aconteceu (mas
está em vias de), a presença de Alckmin ao lado de Lula na Sapucaí é mais uma
demonstração de profissionalismo do que de lealdade. Mas, como se costuma
dizer: em política, tudo pode mudar.
Diogo Schelp - Estadão

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