Ministério da Saúde precisa correr atrás do prejuízo
Nísia cai após erros de gestão e fritura promovida
até por Lula, que busca melhor popularidade com reforma nas pastas
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) demitiu Nísia
Trindade, agora ex-ministra da Saúde. Mesmo que a pasta tenha cometido erros de
gestão, a longa demora na exoneração —que a deixou exposta a críticas públicas
de congressistas e até do presidente— denota não apenas pouco caso do petista,
mas um governo atabalhoado.
Após o desastre sob Jair Bolsonaro (PL), a chegada
de Nísia foi bem recebida por ser um nome técnico com credibilidade.
Formada em ciências sociais pela UERJ, suas
pesquisas abordam a relação entre ciência, saúde e desigualdades. Em 2017, foi
a primeira mulher a presidir a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), posto que
ocupou até 2022.
No entanto, em quase 14 meses de ministério, não
conseguiu deixar uma marca, melhorar de modo significativo indicadores do SUS,
como filas para consultas e cirurgia eletivas, nem enfrentar de forma eficaz a
tragédia anunciada da epidemia de dengue.
Em 2024, mais pessoas morreram pela doença no país
(5.873) do que a soma dos oito anos anteriores (4.992). Em dois alertas no
início de 2023, a Organização Mundial da Saúde (OMS) havia projetado os riscos
de crise sanitária em regiões como a América do Sul devido às mudanças
climáticas.
Contudo o Ministério da Saúde não preparou a rede
básica de atendimento e protelou a autorização para a vacina Qdenga. Nísia foi
demitida justamente no dia em que anunciou um acordo para a produção do
imunizante do Instituto Butantan.
A calamidade da dengue foi usada por parlamentares
para tentar avançar sobre a pasta, que movimenta verba gigantesca —a saúde
pública consome 4% do PIB brasileiro, o que representa mais de R$ 450 bilhões
por ano.
Com a hipertrofia do Congresso Nacional nos últimos
anos, que gera anomalias como o uso opaco das famigeradas emendas, aumenta a
pressão sobre o Executivo por nacos do poder.
Isso somado à queda de popularidade de Lula
pavimentou o caminho para uma reforma ministerial, iniciada com a troca de
Paulo Pimenta na Secom da presidência por Sidônio Palmeira. Especula-se que o
vice Geraldo Alckmin (PSB) também cairá da pasta de Desenvolvimento, Indústria,
Comércio e Serviços para dar mais espaço ao centrão.
Quem ocupará o lugar de Nísia é Alexandre Padilha,
que comandou a pasta da Saúde de Dilma Rousseff (PT) e é ministro de Relações
Institucionais. Sua principal marca foi o Programa Mais Médicos, que teve
impacto limitado nos resultados almejados.
Por óbvio, disputas por poder e acordos com o
Congresso fazem parte, para o bem e para o mal, do presidencialismo de
coalização tradicional no Brasil.
Espera-se, porém, que Lula não pense só na
governabilidade e, sobretudo, na sua popularidade e na eleição de 2026 —ainda
mais em áreas essenciais. Que a busca por resolver os problemas crônicos do
país, missão para a qual foi eleito, seja priorizada na reforma.
Editorial Folha de São Paulo
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