Tribuna do Norte
Em 2021, Cida Lima abriu as portas de casa para
receber pessoas que vivem em situação de rua na capital. Para isso, ela alugou
uma casa de 486 metros quadrados na esquina das ruas Santo Antônio e Professor
Zuza, no bairro de Cidade Alta, no Centro, onde recebe atualmente 36 pessoas,
dentre elas, quatro mulheres e uma criança. É o projeto Alimentando com Amor,
que Cida pretende transformar em um instituto para poder atender melhor à
população que está nesta condição. De acordo com um levantamento da Secretaria
de Estado do Trabalho, da Habitação e da Assistência Social (Sethas), são 2.202
pessoas em situação de rua no RN, sendo a maior parte, 1.491 (67,71%), vivendo
em Natal.
A intenção de Cida é conseguir um prédio público
abandonado no Centro para instalar o instituto. Ela pontua que já deu entrada
no registro em cartório e aguarda a liberação do número do CNPJ para buscar um
local junto ao Governo do Estado ou à Prefeitura. “Aqui em casa vai ficar uma
espécie de triagem, onde as pessoas farão um cadastro para depois ir para o
instituto”, conta. Atualmente, a manutenção do projeto se dá apenas com a ajuda
de empresas e pessoas físicas, que fazem doações em dinheiro ou em alimentos. A
comida segue sendo o principal desafio, de acordo com Cida.
“Por dia, são dois quilos de feijão, dois de arroz e
quatro de fubá para o jantar. Essa é uma quantidade média que a gente gasta
somente para fazer a comida de quem mora na casa. Já cheguei a usar 14 fubás em
dia”, detalha. Além das refeições diárias para quem mora com ela, Cida abre a
casa para que outras pessoas em situação de rua possam fazer as refeições por
lá. “E nossa maior dificuldade é com a mistura, que falta bastante”, afirma.
Cida reclama da falta de atenção por parte da
Prefeitura de Natal e por parte do Governo do Estado, uma vez que, na avaliação
dela, não existe assistência adequada para essa população. “Tem muita gente na
rua que vive por aqui, no Centro da cidade, onde os governantes passam. Eles
veem as pessoas com criança dormindo nas calçadas e não fazem nada. Para se ter
uma ideia, tem três moradores aqui esperando vaga em albergue, mas a fila de
espera passa de 200”, comenta a mulher, que diz não receber nenhum auxílio do
poder público.
Segundo Cida, hospitais como o Walfredo Gurgel (do
Estado) e as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs municipais) costumam pedir
ajuda do projeto para conceder abrigo a pessoas abandonadas nesses serviços de
saúde, mas, ainda assim, nenhum tipo de auxílio chega. Atualmente, Cida divide
a casa, de 10 quartos, com os contemplados, o marido e a filha pequena. Parte
das doações é entregue na casa dela, mas o projeto conta com um veículo próprio
que pode recolher alimentos e outros itens doados.
Valores em dinheiro podem ser depositados via pix
(chave: 84986900256). Dentre os contemplados pelo Alimentando com Amor, estão
pessoas da Região Metropolitana, de cidades do interior e até de outros
estados. Além do alto número de moradores atendidos, Cida costuma doar alimentos
em ações isoladas em outras regiões da capital e também em cidades vizinhas. “A
demanda por alimentos é grande”, afirma.
Negros e pardos
De acordo com o censo da Secretaria de Estado do
Trabalho, da Habitação e da Assistência Social (Sethas), a maioria das pessoas
que estão em situação de rua no Rio Grande do Norte é formada por homens,
pessoas negras e pardas e com faixa etária que varia dos 36 aos 45 anos. O
estudo é uma parceria da pasta com a Fundação de Apoio à Pesquisa do RN
(Fapern) e com o Instituto de Educação Superior Presidente Kennedy.
De acordo com o levantamento, levando em conta todas
as idades, são 1.146 (72,6%) homens cis e 419 (26,6%) mulheres cis na condição
de rua. Já mulheres e homens trans equivalem a 0,7% e 0,1%, respectivamente. Em
relação à faixa etária, a maior parte – 496, ou 22,6% – é de pessoas com idades
entre 36 e 45 anos, seguidas pela população que tem entre 26 e 35 anos: (496
pessoas, ou 22,6% do total).
Levando em consideração o fator etnia, negros e
pardos formam maioria no recorte desta população e somam 1.406 (76,37%), sendo
415 pessoas negras e 991 pardas. Brancos são 412 (22,4%),
amarelos somam 10 (0,5%) e indígenas são 13 (0,7%). O censo indica também que,
durante a pandemia, em um universo de 52 pessoas que responderam aos
questionamentos do estudo referente ao motivo pelo qual foram parar nesta
situação, a maior parte afirmou que passou a viver nas ruas porque perdeu o
emprego: 15 pessoas (30% dos que responderam). Além disso, 8 pessoas (16% dos
respondentes) disseram ter ido para as ruas por ter perdido moradia, outras 8
(16% dos respondentes) disseram ter perdido renda e 5 (10%) afirmaram ter
perdido familiares).
O estudo alerta para o fato de que, com a pandemia,
o número de pessoas em situação de rua aumentou no Rio Grande do Norte. Foi o
que aconteceu com Nietson de Lima, de 31 anos. Ele passou a morar na rua depois
de perder o emprego durante a crise sanitária. “Eu era atendente e até hoje não
consegui um novo emprego. Vou me sustentando do jeito que Deus quer, pedindo a
um e a outro”, relata. Além da falta de trabalho, Nietson conta que alguns
desentendimentos com os familiares fizeram com que ele procurasse as ruas. A
família vive atualmente no Bom Pastor, bairro da zona Oeste de Natal.
Ana Cristina, de 40 anos, diz que passa a maior
parte do tempo nas ruas desde os 15 anos. O companheiro dela vive de aluguel em
uma quitinete próximo ao Viaduto do Baldo, mas em razão de brigas recorrentes,
ela conta que prefere não ficar em casa. Ana chegou a receber aluguel social
por um ano, mas hoje está sem o benefício da Prefeitura. “Sempre tive problemas
com a família, porque sou dependente química. Às vezes vou para outros lugares
da cidade e às vezes fico no Baldo”, comenta.

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