A renda do trabalhador, por mais que tenha subido
após a pandemia, ainda não retomou o patamar anterior à Covid-19, quando se
compara a participação dos salários no Produto Interno Bruto (PIB), ou seja, na
economia.
É mais um indicador que reflete o baixo entusiasmo
dos brasileiros com a queda do número de desocupados, que se deve
principalmente à geração de vagas de baixos salários e mascara uma distribuição
desigual da alta da renda, que nem sempre representa aumento de poder de compra
para algumas faixas de trabalhadores.
Segundo cálculos do economista-chefe da corretora
Tullett Prebon Brasil, Fernando Montero, a massa de renda do trabalho
representava 34,75% do PIB em dezembro de 2019 e, mesmo com todo o crescimento
dos salários desde então, ainda estava em 34,48% em março deste ano, dado mais
recente, tomando por base a soma dos ganhos dos trabalhadores captados na
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE.
Já a renda total das famílias, que engloba salários,
aposentadorias e benefícios, superou o patamar pré-Covid, chegando a 55,84%
frente a 53,74% em 2019.
— Os rendimentos do trabalho quase voltaram ao que
eram antes da pandemia em relação ao PIB. É uma volta expressiva, tinham caído
muito, mas as ocupações são de baixa remuneração — diz Montero.
O pesquisador do FGV Ibre, Fernando de Holanda
Barbosa Filho, em estudo recente, mostrou que a alta de 8,6% no rendimento
médio do trabalhador desde 2019, atingindo nível recorde, está mais relacionada
à composição do mercado de profissionais, hoje mais escolarizado e mais velho,
do que a uma melhoria disseminada entre todos os trabalhadores.
Ou seja, para parte da população, não houve aumento
do poder de compra. Em alguns casos, houve até queda.
— Na hora em que se compara o mesmo tipo de
pessoa, em 2019 e hoje, o salário ainda não recuperou o nível anterior. A
pessoa vai no supermercado e compra menos hoje do que comprava em 2019. Ou
precisa gastar mais. Não importa que a taxa de desemprego seja a menor da
história se meu padrão de vida não está melhorando — diz Barbosa.
Na conta do pesquisador, que fez o estudo juntamente
com Janaína Feijó e Paulo Peruchetti, ao isolar esses efeitos da mudança
estrutural do mercado de trabalho, o rendimento do trabalhador caiu 0,4% frente
a 2019.
Depoimento: ‘Dinheiro não é suficiente
para cobrir tudo’, diz Helder Luiz, eletricitário
“Eu consegui alugar um carro e comecei a
rodar no Uber em 2021, com o objetivo de complementar a minha renda familiar.
Antes da pandemia, eu trabalhava apenas como CLT e não fazia nenhum trabalho
extra. Hoje, mudei de empresa, mas continuo trabalhando de carteira assinada.
Sou assistente técnico de uma distribuidora de energia e faço renda extra
dirigindo no aplicativo, porque só o salário fixo não é suficiente para arcar
com todos os custos da minha casa. Sou casado, tenho quatro filhos, moro de
aluguel, e as despesas são muitas.
Minha renda era mais estável antes da
pandemia, mas eu não ganhava mais do que ganho hoje. Mesmo trabalhando muito, o
dinheiro não é suficiente para cobrir tudo. Depois que comecei a rodar no Uber
mais tarde da noite, minha renda aumentou, mas ainda assim não é o bastante
para viver com tranquilidade. Os meus maiores gastos são a prestação do carro,
essencial para eu conseguir trabalhar no Uber, e o cartão de crédito.
Infelizmente, já precisei pegar empréstimos várias vezes para conseguir pagar
as dívidas mensais e colocar as contas em dia. Mesmo trabalhando em duas
ocupações, ainda é difícil manter o equilíbrio financeiro e dar conta de todas
as despesas da família.”
Subutilização agrava mal-estar
João Saboia, professor emérito do Instituto de
Economia da UFRJ e especialista em mercado de trabalho, lembra que, apesar do
baixo desemprego, há um contingente de ocupados subutilizados, que trabalham
menos horas do que gostariam e até desistiram de procurar uma vaga, saindo da
força de trabalho.
Ao se somarem aos 6,6 milhões de desempregados, há
16,3 milhões nessa condição desfavorável.
— Há uma parcela no mercado que está mal,
ganhando pouco, no desespero, o que fez o endividamento explodir. A melhora nos
últimos anos é impressionante, mas não dá conta. E quem está entrando é com
salário baixo — diz Saboia.
Ele observa que o Cadastro Geral de Empregados e
Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, que acompanha os registros de
criação de postos com carteira assinada, mostrou que, em março, mais de 90% das
mais de 200 mil vagas geradas foram de até 1,5 salário mínimo, cerca de R$ 2,4
mil. Para Saboia, isso explica em parte os problemas de avaliação do governo
Lula, apesar do desemprego baixo:
— Não é suficiente para garantir
bem-estar. Ninguém vive de taxa de desemprego.
Com informações de O Globo

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