Há algo constrangedor para uma democracia quando
tribunais de outros países passam a demonstrar reservas diante de decisões
produzidas por sua Suprema Corte. O que antes aparecia apenas no discurso
político da oposição brasileira ganhou dimensão internacional. Itália, Espanha,
Estados Unidos e até episódios envolvendo investigados refugiados na Argentina
passaram a expor dificuldades do Brasil em obter cooperação judicial em casos
ligados ao STF e ao ministro Alexandre de Moraes.
O caso mais recente envolve a Itália, onde a Justiça
anulou a extradição de Carla Zambelli. Antes disso, a Espanha rejeitou de forma
definitiva a entrega do blogueiro Oswaldo Eustáquio. Nos Estados Unidos, Allan
dos Santos segue fora do alcance das autoridades brasileiras após resistência
americana ao pedido de extradição. Na Argentina, aliados do bolsonarismo também
encontraram ambiente político e jurídico menos receptivo às ordens expedidas
pelo Brasil.
Embora cada processo tenha fundamentos diferentes,
um elemento se repete: tribunais estrangeiros demonstram preocupação com
liberdade de expressão, proporcionalidade das medidas e garantias processuais.
O problema institucional surge justamente aí. Democracias consolidadas costumam
cooperar entre si porque existe confiança recíproca nos sistemas judiciais.
Quando essa confiança começa a apresentar fissuras, o desgaste ultrapassa
personagens políticos.
É evidente que investigados tentam transformar
acusações criminais em narrativa de perseguição. Isso acontece em qualquer
parte do mundo. O ponto delicado aparece quando cortes estrangeiras não
descartam automaticamente esses argumentos e, em alguns casos, acolhem parte
deles.
Nos últimos anos, o STF ampliou de maneira inédita
seu raio de atuação. O tribunal passou a conduzir investigações, determinar
prisões, bloqueios financeiros, remoção de conteúdos e suspensão de perfis em
redes sociais.Em nome da defesa da democracia, consolidou-se uma estrutura de
excepcionalidade jurídica permanente. Críticos afirmam que parte dessas medidas
concentra poderes excessivos e enfraquece garantias clássicas do devido
processo legal.
Alexandre de Moraes tornou-se o símbolo desse
modelo. Para seus defensores, representa a reação necessária contra ataques
institucionais e campanhas de desinformação. Para seus críticos, encarna uma
Justiça expansiva, personalista e pouco tolerante ao contraditório.
O desconforto internacional nasce exatamente dessa
diferença de percepção. Países como Estados Unidos e Espanha possuem tradição
muito mais ampla de proteção à liberdade de expressão, inclusive para discursos
considerados radicais ou ofensivos. Quando magistrados estrangeiros começam a
enxergar exageros onde o Brasil afirma defender a democracia, surge um alerta
difícil de ignorar.
O impacto vai além do embate político interno. O
Brasil passa a conviver com a imagem de um país onde decisões da Suprema Corte
enfrentam resistência crescente no exterior. Isso desgasta a credibilidade do
Judiciário brasileiro e alimenta a percepção de que o STF está ultrapassando
limites fundamentais do Estado de Direito.
DIÁRIO DO PODER

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